terça-feira, 9 de setembro de 2008

Alvo: Terra


- Asteróides e cometas são uma ameaça constante ao nosso planeta. Conseguiremos impedir a catástrofe da próxima vez?
O primeiro sinal da ameaça era só um pontinho entre os rastros de estrelas no telescópio. Pouco depois das 9 da noite de 18 de junho de 2004, ao findar o crepúsculo sobre o Observatório Nacional de Kitty Peak, no Arizona, David Tholen procurava asteróides em um ponto cego astronômico: nos limites da órbita da Terra, onde a luz do Sol pode ofuscar os telescópios. Tholen, da Universidade do Havaí, sabia que objetos que espreitam nessa região podem tomar o rumo da Terra. Recrutara para ajudá-lo um amigo engenheiro, Roy Tucker, e um jovem colega da universidade, Fabrizio Bernardi. Três imagens da mesma faixa do céu tiradas a intervalos de alguns minutos passaram em seqüência no monitor do computador que eles fitavam. "Olha o bicho aí", diz Tucker, apontando um aglomerado de pixels brancos que trocava de lugar nas três fotos.
Tholen informou o achado ao Centro de Planetas Menores da União Astronômica Internacional, uma câmara de checagem de dados sobre asteróides e cometas. Ele e Tucker pretendiam dar mais uma olhada naquela semana, mas a chuva atrapalhou, e o asteróide sumiu de vista.
Quando os astrônomos conseguiram localizá-lo novamente em dezembro, perceberam o problema: a rocha, maior que um ginásio de esportes, despenca em direção ao nosso planeta a cada poucos anos. Conforme foram chegando mais observações ao Centro de Planetas Menores, o asteróide, batizado de Apófis, o nome do deus egípcio do mal, pareceu cada vez mais sinistro.
"A probabilidade de impacto não parava de aumentar", diz Tholen. No Natal, os modelos previram que havia uma chance em 40 de o Apófis colidir com a Terra em 13 de abril de 2029.
Mas, em 26 de dezembro de 2004, uma catástrofe imediata se abateu: o tsunami no oceano Índico. O público esqueceu do Apófis. Nesse meio tempo, astrônomos haviam desencavado imagens anteriores do asteróide. Os dados adicionais permitiram-lhes calcular sua órbita e concluir que, na verdade, em 2029 o Apófis passaria ao largo da Terra. Mas não puderam excluir uma pequena chance de colisão quando o asteróide passar da próxima vez, no domingo de Páscoa de 2036.
Calcula-se que 10 milhões de asteróides rochosos e cometas de gelo e poeira rodopiem pelo espaço cósmico e, de quando em quando, suas trajetórias se cruzam fatalmente com o nosso planeta. Um colosso de 9,5 quilômetros de diâmetro desabou sobre o golfo do México há 65 milhões de anos, liberando milhares de vezes mais energia que todas as armas atômicas do planeta juntas.
"A Terra toda se incendiou naquele dia", diz o físico Ed Lu. Extinguiram-se três quartos de todas as formas de vida, entre elas os dinossauros.
Astrônomos já identificaram várias centenas de asteróides grandes o bastante para causar um desastre no planeta inteiro. Nenhum está a caminho de o fazer num futuro que será visto por qualquer ser humano hoje vivo. Mas o céu fervilha de asteróides menores que poderiam nos atingir em um futuro próximo, com efeitos devastadores. Em 30 de junho de 1908, um objeto do tamanho de um prédio de 15 andares caiu em uma parte remota da Sibéria chamada Tunguska. O objeto, um asteróide ou um pequeno cometa, explodiu poucos quilômetros antes do impacto, incinerando e derrubando árvores numa área de 2 071 quilômetros quadrados. Por vários dias o céu noturno ficou tão claro com a poeira da explosão ou as nuvens geladas do vapor d᾽água lançadas pelo objeto na atmosfera superior que foi possível ler jornal ao ar livre na Europa. No centésimo aniversário de Tunguska, é preocupante observar que objetos daquele tamanho colidam com a Terra a intervalos de poucos séculos.
Na próxima vez em que o céu cair podemos ser pegos de surpresa. A grande maioria desses corpos menores, capazes de limpar uma cidade do mapa, ainda não aparece nas nossas telas de radar. "Nesse caso, a ignorância é uma bênção", brinca Lu. Mas, na próxima década, estudos deverão preencher essa lacuna, catalogando asteróides aos milhares. "Quase não haverá semana em que não encontraremos asteróides com uma chance em mil de atingir a Terra", diz Lu.

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